13/12/2013 - 16h05

Especialistas dizem que é real cobra gigantesca encontrada em Barcelos

A cobra seria uma das maiores já encontradas no Amazonas.

A cobra seria uma das maiores já encontradas no Amazonas.

 

Elaíze Farias – especial para o blog

 

Chances de ingleses encontrarem cobras nas ruas de Manaus, ao disputarem jogo da Copa 2014 contra Itália, também são analisadas

 

A famosa “cobra-grande” pode não ser apenas uma criação do imaginário amazônico ou uma lenda pitoresca para assustar os desavisados. Especialistas afirmam que há registros, de fato,

de serpentes de grandes dimensões que chegam a medir seis, sete ou oito metros de comprimento na natureza. O blog encontrou o responsável pela distribuição da foto de uma cobra, que teria sido encontrada no lago do Miriti, em Barcelos, e teria sete membros. E entrevistou especialistas da Fundação de Medicina Tropical de Manaus (FMTM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que afirmam ser perfeitamente possível a veracidade dela.

O principal espécime “candidato” a cobra-grande é a sucuri (Eunectes murinus), considerada a maior espécie do mundo em volume corpóreo (relação massa X comprimento), embora não seja a mais comprida, segundo informações do pesquisador Rafael de Fraga, doutorando em Ecologia do Inpa, cujos estudos são dedicados às serpentes.

O pesquisador Luís Lozano, do Centro de Ofidismo da FMTM, reforça a existência de sucuris de grandes dimensões, embora ele diga (assim como Rafael) que nunca tenha tido chance de ver um espécime com este tamanho.

Uma dessas “oportunidades” podem ter sido essa dos ribeirinhos da comunidade Miriti, no município de Barcelos, no extremo norte do Amazonas. No mês passado, a foto de uma serpente deformada e morta circulou pelas redes sociais e foi parar em alguns veículos da imprensa. O blog também a publicou. A foto, embora tenha chamado muita atenção devido à dimensão da cobra, teve sua veracidade questionada.

O animal teria sido espancado por ribeirinhos como uma retaliação por ter feito pelo menos cinco vítimas na comunidade. O autor da foto, Rafael Bastos, enviou a imagem para alguns de seus contatos, mas desapareceu posteriormente.

O blog enviou a imagem da cobra para Rafael de Fraga e Luís Lozano. Estes confirmaram se tratar de uma sucuri, embora seja impossível saber o seu tamanho e atestar o tempo em que ela já estava morta.

“Existem registros de sucuris de seis metros na Amazônia. Não tenho nenhuma dúvida de que aquilo na foto de Barcelos é uma sucuri. A dúvida seria em relação ao tamanho. Mesmo com a boca machucada, aquele espécime da foto parece bem grande mesmo, considerando o tamanho da cabeça em relação ao tamanho da mão da pessoa que está segurando. É preciso medir para confirmar, mas uma sucuri de sete metros de comprimento é totalmente plausível”, disse Fraga.

Já foram encontrados no Amazonas espécimes de Sucuri com até 7 metros.

Há registros de Sucuri, uma das candidatas a “cobra grande”, de seis metros na Amazônia. Foto: Divulgação

Luis Lozano reitera a avaliação. Segundo ele, a foto mostra uma sucuri verdadeira, com mandíbula inferior quebrada. “Pelo tamanho da cabeça e do diâmetro do corpo observamos tratar-se de um animal de grande porte. Mas, como foi medido o comprimento do animal? E existe uma situação que não fica clara. Não sei se a foto é de um animal morto recentemente ou depois de algumas horas ou dias, em vista que o processo de putrefação aumenta o tamanho do animal porque fica inchado devido aos gases do processo”, explicou Lozano.

Se a cobra não apenas atacou, mas matou e comeu um ser humano, seria preciso fazer uma análise do corpo do bicho e analisar o conteúdo do estômago. Não apenas isso. Para afirmar que, de fato, ela foi responsável pelas mortes, seria preciso apurar o nome, a idade, a altura e o peso das vítimas.

Pelo fascínio que exerce no ser humano, as cobras fazem parte do imaginário popular há milênios e no mundo todo, destaca Fraga. Ele lembra que a divulgação de informações a respeito das serpentes é rodeada de muito sensacionalismo e folclore.

“Até hoje todas as histórias divulgadas foram baseadas em relatos de pessoas, sem confirmação. Esse relatos, geralmente, são ricos em interpretações baseadas em folclore popular, como a lenda da cobra grande”, diz o pesquisador.

 

Banha da cobra virou remédio

O blog tentou encontrar o suposto autor da foto, sem sucesso. Mas localizou um dos “divulgadores” da imagem nas redes sociais, Régis Góes, radialista e videorepórter de Santa Isabel do Rio Negro, vizinha de Barcelos.

Régis conta que recebeu a foto de Rafael Bastos pelo Facebook e compartilhou, mas perdeu contato do rapaz posteriormente. “O Rafael me disse que quem tirou a foto foi ele e quem está segurando a cobra era o tio dele, depois que a cobra foi cacetada na cabeça até morrer. Ele contou que ela tinha atacado muitos ribeirinhos. Ela ficou daquele jeito, com a cabeça inchada e o queixo arriado, de tanto apanhar”, afirmou Régis.

E o que aconteceu com a cobra morta? Segundo o relato de Rafael dado a Régis, os ribeirinhos cortaram a cobra para tirar a gordura ou “banha”, como é mais conhecida na região, para uso de remédio tradicional.

O blog entrou em contato com a delegacia de Barcelos para saber se havia alguma ocorrência de vítimas da cobra ou informação sobre denúncia de crime ambiental (contra o animal), mas o único funcionário que estava no local disse que “o caso não aconteceu naquele município”. “Sim, eu soube disso, mas não foi aqui não. Foi em Santa Isabel do Rio Negro”, disse o funcionário, que não quis revelar o nome à reportagem.

A sucuri não é um “privilégio” da Amazônia, porque ocorre no Cerrado, Pantanal e parte da Mata Atlântica. Mas a distribuição por outros países da América do Sul, como Venezuela e Equador, está restrita à bacia Amazônica.

“Sucuris são aquáticas, vivem em áreas de remanso de rios, lagoas e igarapés. Elas utilizam corpos de água para se deslocar, inclusive água poluída pelo despejo de esgoto. Sucuris, portanto, eventualmente são encontradas em ambientes urbanos, onde geralmente chegam pela tubulação de esgoto”, esclareceu o pesquisador do Inpa.

 

Mortes e acidentes

Existem na Amazônia varias espécies de serpentes, entre peçonhentas e não peçonhentas. Das peçonhentas, a que apresenta ampla distribuição geográfica na Amazônia toda é a “jararaca da Amazônia” (Bothrops  atrox). Esta é a responsável por mais do 95% de acidentes em humanos, segundo Luís Lozano.

“Jararacas podem viver em áreas de borda de floresta, transitam por locais onde vivem pessoas e, portanto, eventualmente podem ocorrer acidentes”, reitera Rafael Fraga.

A jararaca é uma das espécimes mais peçonhentas da Amazônia.

A jararaca é uma das espécimes mais peçonhentas da Amazônia. Foto: Divulgação

O número de não-peçonhentas, contudo, é maior. As duas espécies que apresentam ampla distribuição geográfica é a jiboia (Boa constrictor) e a sucuri (Eunectes murinos), espécie de hábitos aquáticos. Ambas não produzem veneno e matam  as presas por constrição, ou seja, cortam a respiração e quebram os ossos da vítima. O objetivo, no entanto, é encurtar o espaço disponível para expansão da caixa torácica, matando por parada cardiorespitatória, conforme o pesquisador do Inpa.

“Embora acredita-se que a sucuri pode engolir pessoas, não existem, pelo menos que eu conheça, informações científicas que confirmem esse fato, posto que não temos evidências de terem sido encontrados restos humanos nos conteúdos estomacais de espécimes estudados. O que pode acontecer é o ataque dela a pessoas, matando por constrição e afogamento”, disse.

Conforme Rafael de Fraga, a literatura científica conhece pouco mais de 150 espécies na Amazônia brasileira. A maioria delas está amplamente distribuída, embora a composição regional de espécies possa variar como resultado do histórico biogeográfico de formação da Bacia Amazônica.

“Ao norte do rio Amazonas, aparentemente, a fauna de serpentes tem origem do Escudo das Guianas e ao sul temos grupos provenientes das encostas da Cordilheira dos Andes e comunidades sob influência do clima seco do Planalto Central do Brasil, nas zonas de transição Amazônia-Cerrado. Nossos estudos têm demonstrado que fatores locais de hábitats, como estrutura da vegetação e disponibilidade de igarapés, podem influenciar a presença e ausência de espécies”, explicou.

 

Cobra em Manaus

A capital amazonense também é rica em cobras. Somente em Manaus, há conhecimento de cerca de 70 espécies de serpentes, distribuídas em nove famílias. Segundo Rafael Fraga, há registros de Sucuris na Reserva Florestal Adolphe Ducke, no lago do Acariquara, no Puraquequara e em outros bairros.

“É uma espécie bem comum e deve ocorrer em muitos lugares onde existem corpos d’água. Considerando que na Amazônia muitas comunidades se concentram às margens de corpos d’água, podemos esperar que encontros entre pessoas e sucuris sejam frequentes. Mas um espécime de 7 metros como esse de Barcelos não é comum. Na verdade, a maioria das sucuris que temos encontrado é pequena. A maior que eu já vi na natureza media 4,5 m de comprimento, que encontramos em um igarapé que deságua no rio Madeira, próximo a Jaci-Paraná, Rondônia”, disse Fraga.

Ele não descarta, contudo, a existência de cobras maiores. “Sabemos que existem indivíduos maiores, de até 6 ou 7 metros. Em cativeiro, esses animais podem ficar ainda maiores, dependendo da alimentação. Mas Sucuris maiores que 10 metros nunca foram encontradas, embora existam no imaginário popular”, disse.

Outras cobras bastante comuns em áreas urbanas de Manaus são a Falsa-coral flamenguista (Anilius scytale) e a Cobra-cega (Epictia tenella). Elas são consideradas “fossoriais”, pois vivem em galerias subterrâneas.

“No período das chuvas, elas aparecem com mais frequência porque as galerias subterrâneas ficam alagadas e elas precisam se deslocar pela superfície. Essas duas espécies são totalmente inofensivas, assim como 90% das espécies de serpentes que conhecemos para a região de Manaus”, conta.

Apesar de não oferecer risco à saúde do ser humano, pois não produzem venenos, as cobras que existem em Manaus podem causar outras problemas. Segundo Fraga, o maior está na flora microbiana na boca delas, que poderia causar um processo infeccioso a ser controlado com medicamentos antimicrobianos, antiinflamatários  e analgésicos.

 

Cobra para inglês ver

É fácil encontrar cobras em Manaus, como temem os ingleses, segundo reportagem publicada no final de semana em um jornal daquele país? Para Rafael de Fraga, se o visitante ou o turista decidir passear na floresta e se “tiver muita sorte”, sim. Mas o perigo de acidentes é muito baixo.

“Uma bota de borracha já diminui muito as chances de ferimentos. Já os que resolverem ficar só na cidade, precisam se preocupar com acidentes de trânsito e assaltos, não cobras. Aliás, a chance de morrer em um acidente de trânsito, em Manaus ou qualquer outro lugar, é muito maior que a chance de morrer por picada de cobra”, afirmou Fraga, que afirma que sentiria mais orgulho se Manaus realmente fosse um monte de floresta com bichos para todos os lados.

Para Luiz Lozano, encontrar cobra passeando pelas ruas de Manaus ou na arena da Amazônia, “torcendo pelos italianos”, é nula. Ele conta que a probabilidade aumenta se o “inglês” entrar no mato do igarapé de área urbana. Mas ainda assim é muito baixa a probabilidade.

“Elas apresentam uma camuflagem adaptada ao meio ambiente que habitam e só atacam quando se sentem ameaçadas. E se acontecer um acidente, a Fundação de Medicina Tropical tem o pessoal médico eficiente para o tratamento destes acidentes. Assim, os ingleses não têm porque preocupar-se e que sejam bem-vindos para desfrutar de nossas maravilhas amazônicas, incluindo as cobras”, afirmou.

4 comentários para “Especialistas dizem que é real cobra gigantesca encontrada em Barcelos

  1. Frank Garcia disse:

    Outra informação não verídica.. pesquisem mais, enviei a notícia para vocês em primeira mão, e este blog a publicou infelizmente não mencionou o autor.

    O assunto do email era: Foto da cobra gigante na comunidade de Mirití no Amazonas, real ou ficção.

    Já expliquei várias vezes que esta foto foi publica pela primeira vez no site http://www.barcelosnanet.com por isso a pensaram que foi em Barcelos. Neste site explica a origem da da foto.

    Miriti é uma Vila de Manacapuru onde esta cobra foi morta.

    Grato,

    Frank Garcia

    RESPOSTA:
    Ok, Frank. Obrigado. Estamos corrigindo os dados da matéria.

  2. Nelio Nogueira Teixeira disse:

    Acho que essa cobra grande é engôdo. Cobra Grande mesmo é a do Garantido, em Parintins.

  3. Maurício Tyler disse:

    Nossa que horror,,,,como elas conseguem crescer tanto assim.

  4. Ravene Do Vale disse:

    Bom…Infelismente pessoas e pesquisadores,estudiosos,cientistas,que nem mesmo moram aqui no Amazonas falam bobagens ao dizer que essas fotos nao sao reais…Vir aqui no Amazonas Vez ou outra pra analizar e estudar alguns casos é facil,dizer que essas cobras com essas dimensoes nao sao reais…Deveriam experimentar passar uns anos por aqui,e visitar alguns lugares de Manaus-Am,pra pararem de falar besteira….Eu sou Amazonense e eu sim posso afirmar que ja vi cobras com essa dimensao,frente a frente!
    Obgd!

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