O papa não aguentou o tranco. Jogou a toalha e tirou o time. O fato, inédito nos últimos seiscentos anos segundo os especialistas, despertou novamente o lado provinciano da grande imprensa brasileira. Começaram a pipocar as especulações sobre a possibilidade de um cardeal tupiniquim vir a ocupar o trono de São Pedro. Doce ilusão. É um filme já visto e desgastado. O Brasil, com copa ou sem copa, não tem a mínima chance de emplacar um candidato ao venerando ofício. De nada lhe vale ostentar o título de maior país católico do mundo. A política vaticana não está nem aí para isso, bastando ver que os Estados Unidos da América, apesar da predominância protestante, têm muito mais cardeais que esta Terra de Santa Cruz. Resumindo: em termos de papado, estamos mais para bandeirinha do que para árbitro.
Na verdade, mesmo, não tenho nada a ver com isso. As religiões, todas elas, não me dizem respeito. Criado, como todo mundo da minha época, na fé católica, por pais que efetivamente respeitavam e cumpriam os sacramentos, os caminhos do mundo me afastaram totalmente de qualquer resquício de misticismo. Hoje, é-me incompreensível admitir que a ideia seja anterior à matéria, de tal forma que só consigo encontrar explicação para o mundo nos postulados do materialismo dialético.
Dá-se, porém, que, acreditando ou não na infalibilidade do Sumo Pontífice, é impossível virar as costas para a dimensão universal do assunto, a afetar direta ou indiretamente a vida de milhões de pessoas pelo mundo afora. Ainda mais quando, aqui mesmo em Manaus, estamos nos despedindo de Dom Luís Soares Vieira, exemplo de humanista que, ao longo de sua permanência na arquidiocese, soube dar colorido ecumênico aos ensinamentos que defende e divulga. Verdadeiro apóstolo. Mesmo sem crer, não me custa nada pedir-lhe a benção. Tenho certeza de que me será dada com toda a boa vontade e eu a receberei com a humildade dos que aprenderam a ter respeito pelos que sabem se fazer respeitar.
E ainda: crendo ou não, é preciso ter a mente aberta para suportar certas notícias e alguns revezes. Por exemplo: não dá para ficar impassível diante da evidência de que nenhum aluno do Amazonas conseguiu aprovação para a Faculdade de Medicina de nossa própria Universidade. Onde estamos, minha gente? Que tipo de ensino fundamental e médio estamos oferecendo aos nossos jovens? Acreditem-me: não estou tecendo nenhuma crítica ao professor Gedeão Amorim, ex-Secretário de Estado de Educação. Não tenho o prazer de lhe desfrutar da convivência, mas tenho convicção de que se trata de profissional e técnico da mais alta envergadura. A questão não pode ser centrada em pessoas, mas sim no modelo que se perverteu nos anos da ditadura militar e nunca mais foi reposto no caminho correto.
Assim, tenho certeza, pensaria um amigo que é, ele próprio, outro motivo de angústia e tristeza. É que Orlando Farias partiu para sempre. Que pena! Lembro-me de que, há coisa de dois anos, estava eu no Rio de Janeiro quando recebi um telefonema dele. Pedia-me que passasse a escrever no Blog da Floresta, então recentemente por ele criado em parceria com um colega. Propus-lhe a publicação desta coluna que mantenho no DIÁRIO, proposta por ele aceita não sem antes massagear meu ego com elogios obviamente imerecidos.
Era assim o Orlando. Coração aberto para o mundo, fazia do jornalismo um sacerdócio, tendo compromisso inafastável com a verdade. Sua formação marxista, não lhe permitia transigir com interesses imediatistas e alçava voos que só a quimera conseguia monitorar. Assim é que, em 2007, juntamente com esse outro exemplo de jornalista que é José Maria Pedrosa Castelo Branco, lançou o semanário O Repórter, jornal tipicamente forjado na ânsia de estabelecer uma imprensa alternativa, em que as considerações de ordem econômico-financeira fossem incidentais e não de fundo.
Entrevistou-me ele para o semanário. As perguntas revelavam a preocupação com o destino de pessoas que, tendo abraçado uma ideologia, a ela se dedicavam a ponto de olvidar coisas primárias, como o bem estar pessoal. Foi uma troca de ideias entre correligionários e só fez acentuar a admiração que sempre nutri por Orlando. O mesmo Orlando que, lá pelos idos de 1997, depois que eu assumi a Secretaria de Justiça no governo do doutor Amazonino Mendes, conduziu o tema da BICA para o enredo “O velho comunista se aliançou”. Foi um escracho, mas topei e desci com a banda.
Adeus, velho camarada Orlando Farias. Você fará muita falta.
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