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O ensino fundamental e os resultados de longo prazo

Francisco Cruz Francisco Cruz*

Segundo o resultado do último IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), realizado em 2011, a rede municipal de educação da cidade de Manaus repetiu o desempenho desastroso do exame anterior, ocorrido em 2009. Entre as 15 primeiras escolas do Estado, apenas uma (a décima segunda) é do município e, das 15 piores, sete são da Prefeitura, com notas médias que variam de 0,9 a 1,9, numa escala de 0 a 10. Resultado no mínimo assustador.

Absolutamente nada justifica esse lamentável quadro. A ser verdade o que se especula Brasil afora, a situação, por incrível que pareça, poderia ser pior. Comenta-se à boca pequena que, para esses exames, as escolas brasileiras mandam seus melhores alunos. Os piores adoecem exatamente no dia das provas. Outro susto!

Esse cenário alerta que o ensino público de Manaus está enterrando o que há de mais caro ao ser humano: a capacidade de sonhar, essência da própria vida e que só se amplia com o acúmulo de conhecimento. Sem sonhos não há realizações e sem elas fenecem todas as expectativas de futuro. Não haverá luz no fim do túnel e a pobreza não será revertida.

É preciso fazer alguma coisa urgentemente. Não dá mais para esperar. Não se pode mais continuar roubando de crianças, jovens e de suas famílias, a esperança de melhorar de vida.

Qual será o futuro dos que estudam nessas escolas, cujas médias das notas escolares são 0,9; 1,0; 1,1; 1,2; 2,0 ou que seja a média máxima de 5,6 conseguida por quatro ou cinco das escolas? Não se sabe, mas boa coisa não está reservada à grande maioria delas. Estudar numa escola com esse desempenho é entrar no jogo da vida já perdendo.

É como participar de uma maratona sabendo-se, de antemão, que só os últimos lugares podem ser almejados. Capacidade física para competir não falta. Falta preparo e falta disciplina. Os atletas vão ao local de treinamento, mas o treinador chega atrasado ou não aparece e muitos deles sequer estão preparados para a sua tarefa. Quase sempre o treinamento termina antes da hora marcada ou não se realiza. Por essas e outras razões é que muitos atletas desfilam pelas ruas da cidade em pleno horário dos treinos.

Sem motivação, muitos deles abandonam a equipe, renunciando a uma melhor condição de vida. Serão eternamente excluídos e continuarão a engrossar o exército dos politicamente manobráveis, pois, jamais ultrapassarão os limites da sobrevivência rasa.

Essa calamidade nunca será afastada com ações ortodoxas. A situação exige atitude revolucionária para mudar um ambiente acostumado à mesmice e onde se acredita que melhorias na educação só acontecem no longo prazo. Crença que imobiliza. Ouço isso há um quarto de século e excluindo-se as melhorias nas instalações físicas (esse tem sido o foco dos gestores), os avanços foram insignificantes frente às necessidades.

Que tipo de transporte usa esse tal de “longo prazo” que nunca chega? Seria o da “lerdeza absoluta” ou o da “inexorável falta de compromisso”?

Nesse momento de mudanças na administração da cidade, sugiro ao novo prefeito elaborar um projeto piloto com as 50 piores escolas do IDEB, com o objetivo de melhorar em três vezes os seus resultados já para o final de 2013, quando acontece o próximo exame.

É evidente que não se tem a pretensão de apresentar nesse modesto artigo um plano acabado. Não há espaço e nem é esse o propósito da coluna. Mas julgo importante oferecer a seguir um esqueleto do que seria esse piloto:

1 – A diretriz

Os membros da comunidade escolar devem estar conscientes que o papel da escola é ensinar e todos os alunos, com raríssimas exceções, devem terminar cada período com sólidos conhecimentos do que foi ensinado. Nenhum deles pode chegar ao quinto ano sem saber ler e sem conhecer as operações matemáticas próprias para o período. Se isto acontecer, a falha terá sido da escola.

2 – Disciplina

2.1 – A disciplina é parte inerente à formação de cidadãos. Não existe boa escola sem disciplina. É necessidade básica criar um manual de conduta para alunos e professores, com rígidos padrões de comportamento e penalidades claras por desvio de conduta;

2.2 – Os alunos devem ter, rigorosamente, no mínimo quatro horas integrais de aula por dia. Assim o horário das escolas será: manhã das 07:00 às 11h:30 horas e das 13:00 às 17:30 horas, com 30 minutos de intervalo para merenda.

2.3 – Os portões da escola serão fechados exatamente as 7:00 e 13:00 horas, respectivamente. Não haverá exceções para entradas após esse horário;

2.4 – Não será permitida a entrada na escola com equipamentos eletrônicos de qualquer natureza, inclusive celular;

2.5 – Os pais devem ser conscientizados dos compromissos dos seus filhos com a escola, com o que devem comprometer-se a colaborar, por escrito.

3 – Metas de aprendizado

3.1 – Priorizar e ministrar todos os dias da semana Português, Matemática, Ciências e, quando for o caso, Inglês e Espanhol;

3.2 – Estabelecer metas bimestrais do aprendizado visando o objetivo definido de melhorar em três vezes os resultados de 2011.

4 – Acompanhamento

4.1 – Realizar avaliações bimestrais por equipe de fora da escola avaliada;

4.2 – Avaliar diretores, professores e demais membros da comunidade escolar, com essa mesma frequência. O resultado das avaliações dos alunos terá peso preponderante sobre os demais itens avaliados;

4.3 – Premiar os membros da comunidade da escola, exclusivamente, em função dos bons resultados alcançados;

4.4 – Não haverá uniformidade na premiação. O valor do prêmio será sempre em função do resultado de cada um. Fortalecer a meritocracia é o objetivo;

4.5 – “Consagrar” na agenda da escola reunião com os pais para discussão dos resultados dos seus filhos nas avaliações e outros assuntos de interesse coletivo;

4.6 – Conquistar os pais para integrar o processo é compromisso direto da escola, que definirá suas próprias estratégias.

5 – Prorrogações de horários

5.1 – Prorrogar os horários dos alunos com avaliações insatisfatórias em mais uma hora, todos os dias, até que o quadro se reverta à condição “satisfatória”. Ou seja, os alunos nessa situação só deixarão a escola às 12h30m manhã e 18h30m tarde;

5.2 – Os alunos que, mesmo com as aulas de reforço, não atingirem as metas estabelecidas continuarão estudando durante as férias, até conseguirem melhorar os seus resultados.

6 – Visitas às famílias

Criar um sistema de visitas às famílias de alunos com desvio de conduta ou baixo desempenho. Essas visitas ficarão a cargo dos professores, que avaliarão as condições sociais do aluno, para identificar e tentar afastar os obstáculos que estejam influenciando negativamente os resultados.

7 – Estagiários

Sempre que necessário, os professores receberão apoio de estagiários, a partir de programas previamente estruturados;

8 – Novas adesões

Ao final do primeiro semestre uma avaliação global do projeto será feita. Se a curva dos resultados indicar melhorias consistentes estudos serão desenvolvidos para definir a conveniência de um cronograma de adesão de novas escolas ao projeto;

9 – Escolas de tempo integral e o desperdício de cérebros.

9.1 – Fará parte das avaliações formais um relatório dos professores, produto das suas observações sobre os alunos, com a pretensão de identificar os que possuem talentos especiais, esforço e dedicação, além dos bons resultados;

9.2 – Alunos com esse potencial serão indicados para testes e entrevistas por uma área criada para esse fim, composta por profissionais especializados no reconhecimento de talentos excepcionais;

9.3 – Constatada a excepcionalidade desses alunos, os mesmo serão dirigidos para as escolas de tempo integral, que serão, exclusivamente, “escolas de excelência”, com o fim de desenvolver e aprofundar habilidades e talentos do estudante “fora de série”.

Reverter a atual situação do ensino em Manaus é o maior desafio do novo prefeito. Mas, como se sabe, é notória a sua capacidade de trabalho, dedicação e o denodo com que enfrenta desafios. Este não será fácil, porém, ao abraçar essa causa, como se espera, nasce uma esperança para milhares de crianças e jovens libertarem-se das mutilações causadas por essa educação de má qualidade.

Se isto não acontecer, o “longo prazo” ficará quatro anos mais longe.

Sucesso Prefeito!

* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 2009, coordenou a área de educação do Pacto Amazonense.

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