Com alguns séculos de atraso, em meados da década de 1990, o País finalmente acordou para a importância da educação. Em tempo recorde (1995 a 2000), praticamente, todas as crianças entre sete e 14 anos encontraram o caminho da escola. Cuidar da qualidade seria a etapa seguinte, o que não aconteceu. Essa dificuldade tem anulado parte daquele esforço, pois, mais de 50% dos alunos passam pela escola sem deixar a ignorância. Elas chegam ao quinto ano reconhecendo algumas palavras, mas sem saber exatamente o sentido delas. São “analfabetos funcionais”, versão melhorada do analfabeto.
Na tentativa de mudar essa situação o País tem titubeado. Alternam-se ações entre invencionices sem resultados, embora boas de voto, e outras que podem apresentar melhorias, mas num prazo que não atende à urgência requisitada neste momento. A gestão, principal problema do setor, é colocada de lado, consolidando a nossa posição na periferia do desenvolvimento tecnológico.
Atualmente a “informatização das escolas” e a “escola de tempo integral” encantam a todos. São dois programas de uma lógica meridiana e, como tal, têm o apoio da população, portanto, com “retorno político” garantido, o que, no fim, é o que mais interessa.
Não é por outra razão que constam da plataforma de qualquer agremiação partidária país afora. Uma festa para o marketing eleitoral! Preocupações dessa natureza nunca foram muito além disto. Só se descobrem suas inconsistências e inviabilidades, quando os resultados não aparecem e muito dinheiro já foi gasto.
A informática, por exemplo, até agora tem servido apenas ao marketing político, no caso público, e ao marketing comercial, na escola particular. É claro que o seu potencial é extraordinário. Mas, segundo especialistas, ainda não há nada que comprove sua eficiência no aprendizado em sala de aula, pela falta de uma adequada metodologia pedagógica em sistemas universalizados. Apesar disto, nossas escolas estão sendo entupidas com computadores e outros artefatos, aparentemente sem que a comunidade escolar esteja preparada para tal. Há casos em que os equipamentos chegaram à escola e nunca sequer foram ligados, como, aliás, a imprensa tem noticiado.
No segundo caso, é evidente que o tempo de permanência na escola tem influência no desempenho escolar, mas, se estamos contando com essa ferramenta para mudar a qualidade da educação brasileira, como é a necessidade, seria melhor reavaliar.
A escola de tempo integral só pode gerar os resultados que o País precisa se for universalizada de forma rápida, o que torna a missão impossível. Temos muitas escolas. São quase 180 mil. Imagine o tempo que vai levar para adaptar todas elas e construir outras tantas, pois não se pode esquecer que, praticamente, todas funcionam em dois turnos. Se for levado em conta o histórico atual, o custo equivale a um PIB (Produto Interno Bruto) do País e o tempo de conclusão um século. Não temos esse dinheiro e muito menos esse tempo.
Sem analisar essa perspectiva, quase todos os Estados brasileiros estão levando adiante esse projeto. Como os recursos são limitadíssimos, essa tarefa vem sendo cumprida a passos de cágado, velocidade que fere a Constituição, pois, cria uma casta de privilegiados, escolhidos, sabe-se lá sob quais critérios. E que resultados já ofereceram? Significativamente nenhum que possa ter alterado positivamente os indicadores globais da nossa educação. Tudo leva a crer que a única vantagem é representada pelo tempo de permanência em sala de aula.
Ora! Se estender o tempo resolve, a Lei de Diretrizes de Base (LDB) de 1996 já indicava uma solução mais plausível: “A jornada escolar deve ser de quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado”. Desde então as escolas deveriam funcionar nos dois turnos com essa quantidade de horas. Em vez da progressividade, recomendada pela dita LDB, regredimos, pois, atualmente, a média é de três horas segundo as pesquisas. Se fosse da nossa cultura cumprir a lei, além das quatro horas determinadas a jornada já teria sido aumentada em pelo menos uma hora. Seriam mais de 200 horas/ano.
No trabalho de construir uma boa educação e fazer sair da sala de aula pessoas preparadas para transformar o País, nas dimensões política, social e econômica, temos o dever de não medir esforços. Nesse sentido, não há justificativa alguma para que os estudantes tenham três meses de férias.
Imagine-se o atraso que causa a uma criança ser interrompida pelas férias na fase de alfabetização. Ao retornar, um ou dois meses depois, esqueceu tudo e tem de voltar ao ponto inicial. É dinheiro jogado fora. Há inúmeros exemplos dessa natureza. Reduzir esse período para os trinta dias convencionais é uma obrigação.
Permanecer com esse longo tempo de férias só teria algum sentido se tivéssemos preparando as crianças para algumas profissões que desfrutam de semelhante descanso, mas, como se sabe, isto é privilégio de poucos.
Implantar o horário de 07h às 12h e reduzir as férias para 30 dias significaria aumentar o tempo das crianças em sala de aula, em quase 50% do tempo atual. E, o mais importante, baixo custo e pode ser implantada para todos, sem privilégio algum, a curtíssimo prazo.
Evidentemente que os problemas da educação vão além do aumento da jornada, mas, independentemente de outras ações que devem ser tomadas, os resultados entre quem estuda três horas (média atual) e cinco horas e meia (tempo possível) devem ser infinitamente melhores.
A escola de tempo integral, inegavelmente, é uma excelente alternativa, pena que tenha chegado com dois séculos de atraso. É um erro tentar implantá-la agora. Insistir na ideia demonstra a nossa falta de percepção de urgência, nesse momento crucial da nossa educação. Ela só teria sentido se fosse para abrigar apenas os alunos “fora de série”, uma população desconhecida e que não recebe qualquer cuidado da Nação Brasileira. É mais um desperdício do qual nos arrependeremos no futuro. Ou, como diz a diretora da ESCOLA BRASILEIRA DE PROFESSORES, Guiomar Namo Melo: “escola de tempo integral PARA QUÊ? SÓ SE FOR PARA OS PROFESSORES”.
Concordo. O importante é ter aulas todos os dias, de segunda a sexta. Na semana que tem 1 feriado é motivo para não ter aula o restante dos dias. Houve um ano que o feriado de 12 de outubro foi numa terça-feira e não houve aula na segunda pois era ponto facultativo. No dia 14 também não, pois era a festa do Dia dos Professores e no dia 15 era o dia próprio deles e também não houve. No fim, só teve aula no dia 13. Falta qualidade e quantidade de horas-aula principalmente Português e Matemática. E isso nem o tempo integral e nem os computadores vão resolver.
Adriana,
Obrigado pelos seus pertinentes comentários. Não adianta colocar a escola de tempo integral se o professor continua faltando, se não há professor para determinada matéria ou se qualquer desculpa vale para não haver aula, inclusive reunião dos professores que, em muitas escolas, acontece coincidentemente às sextas feiras. Um absurdo! O problema está na gestão.
Como disse, seus comentários são pertinentes inclusive no que se refere a Português e Matemática. Sobre isto, aliás, já escrevi um artigo que estou encaminhando a vc.
Obrigado
Por favor Cruz, e o que á mais grave. A valorização do professor é deixado de lado. São 1950 avalizções pra corrigir em cada bimestre no mínimo (são 17 turmas) . Não é brincadeira. Quando é que se corrigi. No sagrado final de samana?. E sem falar na falta de planemamento de uma boa aula. Onde encontrar tempo pra isso que é importantissimo pra aula não ficar entediante pro aluno.Todos sabem e não fazem nada. Ter que aprovar aluno que não sabe nada, a Seduc praticamente orienta que “eles devem ser aprovados pra os indices não cairem”. É necessário a contratação de mais professores para que isso possar acontecer de verdade. Uma educação de qualidade se faz com a valorização do professor com ferrentas necessarios pra uma boa aula, com tempo suficiente para dar atenção a “todos” os alunos.Convém que seja no maximo 5 turmas por professor em cada 20 horas. Eu tenho 10 turmas em 20 horas/aula. Isso é um absurdo pra uma educação de qualidade. Não tem como ter qualidade com 10 turmas em 20 horas. Na Seduc é assim.
Meu caro professor. Obrigado pelo comentário. É um absurdo que a irresponsabilidade leve a que pessoas que estão nos lugares chaves da educação, com a obrigação de trabalhar para melhorá-la, cometam o crime de mandar passar alunos para não degradar os indicadores. Isto num país um pouquinho sério seria crime. Mas aqui tudo vale. É revoltante! Diante disto o que mais pode acontecer? Vc acha que quem faz isto está preocupado se vc está sobrecarregado ou não? Ou se diferente de vc o professor aparece para dar aula ou não? Vc fala na contratação de mais professores, que pelo quadro que vc desenha é necessário. Mas, quantos professores hoje estão afastados da sala de aula? Aonde está o Sindicato que não ouve o que vc está dizendo e reclamando? Certamente os dirigentes sindicais sabem de tudo isto e por que nada fazem? Diante desse quadro é difícil imaginar que alguém vá valorizar o professor para que os resultados melhorem. Só posso lamentar e me revoltar muito meu caro amigo.
Grande abraço
Cruz
Caro João
O Sindicato não se houve com interesse de ouvi-lo. Desculpe o erro.
Sou Pedagogo (Especialista) e atuo na àrea de tecnologia da Secretária de Educação e concordo plenamente com você!
Infelizmente a Sociedade é cúmplice dessa política da manipulação , onde a intenção é o desvirtuamento da administração pública e o favorecimento de poucos em detrimento da sociedade , todos sabem , muitos reclamam e nada muda !!!
Hoje um professor do ensino básico ganha menos do que um gari , ou seja , menos do que um profissional de baixa escolaridade , é dentre todos os profissionais de nível superior , o que apresenta o menor salário , pergunto :
Como formar e atrair profissionais competentes para o Magistério com esse atrativo, somos tratados hoje como escória , sem respeito e dignidade !
Obrigado e parabéns pelo seu texto !
Aproveitando o espaço , pergunto-lhe :
Já observou algum movimento na Mídia pela valorização dos Professores ?
Quando se fala em melhor qualidade da Educação , por qual razão não se questiona o salário pago a esses profissionais ?
Todas as categorias de trabalhadores , sejam parlamentares , magistrados , policiais , médicos , metalúgicos e outros , sempre reinvidicam a necessidade de receberem melhores salários para prestarem melhores serviços , por qual razão isso não se aplica aos educadores ? E por qual razão ninguém se importa ?
Aa suas respostas vou aguardar , a minha para todas essas perguntas é simplesmente de que , os indivíduos só se preocupam com o seu próprio favorecimento , é imediatista , egoísta e acima de tudo cego por uma ignorância características de países e povos subdesenvolvidos , onde se vota por favores e por interesses , além do descaso é claro !
Obrigado pelo espaço !